Lembranças












O negro
   O drama
        Em um muro
O Negro Drama
Em linhas negras
Um branco drama
                                         Lançado ao tempo
O negro drama
Ao sol e ao        vento
Negro Drama
A chuva lava a alma negra
De seus dias
Seus dramas
                            O amarelo conta os dias
Do Negro Drama
                                                                                  Sua existência é muda
Negro Drama
Uma r1ch1dur1?
No Negro Drama
                                                                  Votar em quem?
Negro Drama
Que indeciso e só
                        Vive seu drama
Esta rua é minha
Oh! Negro Drama
                        Mas todos os dias
VIVO SEU DRAMA
                                                        Invejo a ti
Negro Drama
Que és tão forte
                            E
                                                        Vive seu drama.
Velho e desbotado
Um
N
E
G
R
O
D
R
A
M
A
Negro drama?
Em mim gravado
Teu negro drama
Não mais existe
Oh! Negro Drama
No azul perdido
Me deixou só
...
Vivo meu drama.
...
De tua face
Só há lembrança
De nossa rua
De nosso drama
Uma linha triste
O Negro e o Drama.
Negro Drama by André Camargo Lopes, 26 de novembro de 2004.

O poema acima em sua desconstrução concretista foi dedicado a um graffiti que por longos meses “habitou” solitariamente o muro de entrada da antiga Escola Oficina do Conjunto João Paz na região norte de Londrina.  Uma figura monocromática, de um simples tracejado em linha preta. A figura de braços abertos. Longos braços abertos. Completava-se com a seguinte inscrição: “Negro Drama”. Uma frase curta que se referia provavelmente ao título de uma música da então emergente banda de RAP, Racionais MC’s. Ambas as imagens (figura e texto) repercutiam uma nova instância cultural que desde os anos finais da década de 1990 se afirmavam nas periferias de Londrina: a cultura hip hop. Nova postura de comportamento musical, plástico e comportamental que despertou meu interesse como artista plástico, na época, recém formado no curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Londrina, voltado a pesquisas formais e cromáticas para aplicação em meus trabalhos de aerografia.
O contato cotidiano com esta imagem e outras imagens que começavam a povoar de forma insistente os muros da região levou-me a um primeiro esboço de registros fotográficos destas composições. Era um batalhão de imagens realizadas por jovens alunos de projetos sociais do município. Imagens ainda em estado primitivo, com poucas cores e sem uma identidade estilística. De constante somente os temas: o negro (condição social), a favela (periferia), o spray (símbolo de rebeldia).
Jovens cujas suas camisetas mais pareciam grandes bandeiras com nomes e símbolos de bandas de RAP paulista estampadas em seus peitos e costas. Calças jeans de tamanho duas ou três vezes maiores que os seus usuários, bonés, lenços bandanas, e caras fechadas. Muitas caras fechadas (pois o Mano Brown não sorri, certo?). Período de consolidação de gangues de pichadores como ALMAS, OKAIDA e ARTIGO que disputavam (e disputam) palmo  a palmo, centímetros dos muros da região e da cidade, com seus tags simplificados em linhas contínuas e verbalizadas. Dos manos e das minas, e da inevitável associação desta “cultural marginal” à criminalidade crescente entre os jovens. Dos carrões fechados, dos “boyzinhos” que em um movimento de transgressão, ou inversão dos estamentos socioculturais, se permitiram seduzidos por esta nova e emergente realidade cultural.
O início dos anos 2000 foi um momento de “guetificação paulistizada” da cultura jovem londrinense, influenciada creio que diretamente pela proximidade geográfica, fator que nos idos de 1990-93 não favoreceram a consolidação do funk carioca na região, que foi amplamente marginalizado e descartado pelos promotores da cultura jovem londrinense.
Todavia, hoje passados seis anos, a pintura já não existe no muro há pelo menos cinco anos. Resistiu bravamente ao sol e a chuva, mas não a condição efêmera de sua natureza de pintura. O RAP com gênero musical, perdeu o seu encanto e espaço entre uma grande parcela de jovens, geograficamente se instalou nos fundos das periferias e nas favelas. Tornou-se mais que um modismo, como em seus anos iniciais, hoje mais do que nunca é um cântico de revolta e de marginalização.
O graffiti e a street dance em um movimento contrário, com sua forte presença nos projetos sociais do município ganhou evidência, se consolidando como uma forma de expressão plástica extremamente popularizada entre os jovens londrinenses. Mas onde está o hip hop?
A arte do graffiti em Londrina hoje se evidencia pela sua projeção em determinados círculos culturais e sociais, muitas vezes, expressa concepções bairristas, e até certo ponto pretensiosas e autopromocionais? 
É esta presença da cultura visual do graffiti em Londrina, em todas as suas contradições, que pretendo expor neste espaço. As imagens aqui apresentadas correspondem a quase uma década de pesquisa e catalogação de graffiti pela cidade de Londrina (2009-2018). Neste entretempo, grupos de fazedores de graffiti como AME CREW apareceram, o CAPSTYLE ganhou notoriedade e seus integrantes maturidade técnica e estilística. Surgiram os estêncis, cada vez mais politizados e consistentes.
Para a compreensão desta cultura visual soma-se às imagens, textos explicativos a partir de entrevistas com os grafiteiros londrinenses ligados a estes grupos, estudos de material referente à presença do graffiti em Londrina, assim como um diálogo teórico enquadrando a relação da linguagem com o público em uma troca de sentidos e identidades enquanto processualidade na composição da cidade.        

  

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